“Kovacs”, emoção crua e voz abissal

KovacsEngraçado como às vezes parece que grande indústria da música esteja sempre olhando para trás. Não no sentido de não dar espaço aos novos talentos (se fosse assim não existiriam tantos talents shows, certo?) mas sim, no sentido de redescobrir vozes que parecem ter saídas da vitrola empoeirada… Lembro de quando ouvi Amy Winehouse pela primeira vez, aquela sensação de ter “reencontrado” um estilo perdido em um tempo que nem conheci, aquela voz unica e que abriu espaço para tantas outras, quem sabe, consideradas “datadas” antes da Amy Winehouse estourar nas paradas de sucesso (isso sim que é um termo datado!).

Que eu não seja punida pela comparação mas escutar a voz da holandesa Sharon Kovacs, me fez experimentar novamente aquela sensação. Os desavisados podem pensar que se trata de um novo remix com a voz de alguma diva do jazz dos anos 40 ou de uma cover perdida em alguma coletânea lounge com nome de boutique hotel. Mas não, é tudo novo, fresco, carregado daquela energia juvenil (Sharon Kovacs tem só 24 anos) e talento para atravessar décadas.

O primeiro disco de Kovacs – esse é o seu nome artístico – sai no mês que vem e o primeiro single, “My Love” é um enorme sucesso na Europa, com o primeiro lugar na Grécia e sexto no iTunes Holandês. A sede pelo primeiro álbum da artista é grande, as visualizações do vídeo de My Love passam dos 3 milhões e os outros videos, continuam o galope com centenas de milhares de views no Youtube.

Definir a musica de Kovacs? Prefiro deixar para a critica especializada que começa a ser enfeitiçada pela voz forte dessa garota. Tem jazz? Tem, e muito! Tem funk, tem r&b, tem pop e tem também aquele ar maudit, danado, misterioso e fascinante que faz a gente querer acender um cigarro, pegar um copo de bebida forte e barata e se deixar entorpecer.Não se deixe enganar pelo olhar doce e o gorro de pelúcia com orelhas de urso.

Mais um nome para guardar na memória. Ainda vamos ouvir falar muito de Kovacs, e depois não diz que eu não avisei…

Ibeyi, as irmãs que misturam yorubá e pop

Não sei se já aconteceu com você mas sabe quando uma coisa parece que te persegue? Eu tive essa sensação com as o Ibeyi, duo formado pelas irmãs gêmeas Lisa-Kaindé Diaz e Naomi Diaz. Primeiro vi um vídeo entrevista com as duas no Facebook, depois continuei a trombar com as duas em programas nas emissoras de rádio daqui e nas páginas de revistas descoladas. Na correria sempre fui deixando para depois a musica das duas. Azar o meu!

As meninas nasceram em Cuba, filhas do famosos percussionista cubano Miguel ‘Anga’ Diaz, membro do mítico Buena Vista Social Club. Com a morte do pai, Lisa e Naomi, começaram a cantar. Assim, do nada. No palco, uma toca piano e a outro  cajón, tradicional instrumento de percussão cubano, cantam em inglês e yourubá e criam uma atmosfera mistica durante os shows, transportando quem as escuta a uma outra dimensão, feita de orixás, sentimentos, delicadeza e viagens ao coração da África, França e Caribe envolvidas por uma atmosfera nórdica;  um pop barroco inocente e ao mesmo tempo, potente.

Escolher uma música para apresentar o duo Ibeyi não foi fácil… Quase sempre não é. Mas sei que você, caro leitor, é esperto e usa a minha escolha para viajar sozinho pelo YouTube, certo? Eu escolhi Oya, outro nome para o  orixá dos ventos e tempestades, Iansã. Sempre para ficar no tema, Ibeyi ou Ibeji é o nome dado aos gêmeos da mitologia yourubá; “é o Orixá-Criança, em realidade, duas divindades gémeas infantis, ligadas a todos os orixás e seres humanos” (via).

O texto, em inglês e francês da canção, pede para Iansã/Oya “levar”… Diz, mais ou menos assim: “Mesmo que a pele da minha mao alcance o vento, alcance a nuvem, eu nao te vejo. Mesmo que eu sinta o sol na minha pele todos os dias, eu não tem sinto. Me leve Oya”

Com a benção dos Orixás, as duas irmãs vêm arrancando elogios da crítica especializada, lotando concertos e virando notícia. Guarde bem esse nome, você ainda vai ouvir falar muito das gêmeas do Ibeyi.

Playing for Change e a música que faz o bem

Playing For ChangeAlguém já conseguiu quantificar o poder da música?  Não importa onde você estiver, mesmo sem conhecer uma só palavra da língua e dos costumes locais, é bem capaz da musica daquele lugar ser a primeira coisa a comunicar com a sua alma. Amar a música, em todas – ou quase – as suas variações é um bom exercício de humanidade.

Abrir a mente, sentir o ritmo, experimentar emoções, pode ser uma coisa boa. Jà parou para pensar que nao tem como se defender da musica, ou melhor, do som. A audiçao é um dos nossos sentidos mais difíceis de anular. Se você não quer sentir um odor, tapa o nariz. Não quer ver, fecha os olhos e para não ouvir? Impossível! Mesmo tapando os ouvidos, os seus rumores internos vão fazer você continuar ouvindo, não tem jeito!

Porque não usar todo o bom poder da música para o bem?  O Playing for Change é um projeto incrivel, idealizado por  Mark Johnson, convencido que a musica teria o poder de quebrar barreiras e unir as pessoas. O projeto virou uma super banda que gira o mundo com concertos cheios de emoção, alegria e celebração da musica popular, aquela mais perto do povo, que arrasta qualquer um para dentro de um turbilhão de boas sensações.

Além da banda, o PFC é um projeto multimídia, com episódios disponíveis no site sobre as andanças da trupe, apresentações ao vivo e clipes lindos como esse que a gente assiste logo ali embaixo. Essa versao de “Lean on Me“, de Bill Withers, foi especialmente criada para outro projeto bacana, o The Art of Saving a Life, com vacinas para populações carentes. Participam do vídeo músicos da Austrália, Índia, Itália, Japão, Holanda, África do Sul e Estados Unidos.

Solidariedade, musica, amor… E como não acreditar que esse mundo ainda tem jeito?!?

Benjamin Clementine ou como nasce uma estrela

Benjamin Clementine

De tempos em tempos a música  pop desova personagens que encantam, enfeitiçam… Vou te contar como é que eu descobri Benjamin Clementine: estava em casa, de molho por causa de uma influenza, domingo à noite.  Sintonizei (ah, que palavra antiga! Adoro) a tv na Rai 3 para assistir  Che Tempo Che Fa e vejo uma figura diferente. Pés no chão, o cabelo penteado todo para cima, um olhar meio perdido e misterioso, aquela magreza e fragilidade estranha. O apresentador estava exaltado com a presença desse cantor e compositor e quando pronunciou o seu nome, o auditório veio abaixo entre aplausos e gritos. Pensei com meus botões: – Como é que eu nunca ouvi falar em Benjamin Clementine?!? Foi ele começar a tocar o piano e cantar que morri de culpa.  Perdão, por nunca ter ouvido falar em Benjamin Clementine. Perdão!

A história de vida desse artista é uma obra de arte à parte. Nasceu em Londres  mas aos 18 anos, esse filho de imigrantes ganeses, briga com a família e decide ir morar nas ruas da capital inglesa. Quatro anos depois, vai morar em Paris para seguir a sua paixão pela música e poesia. Se torna um artistas de rua, tocando suas musicas no metro da capital francesa por uns trocados (no Youtube existem videos dele cantando antes da fama) até que um produtor musical o “descobre” e tudo muda. Em 2013, a febre se espalha por toda o Reino Unido depois de uma apresentação em um, famoso talk show.  Hoje Benjamin tem apenas 25 anos e uma agenda de concertos de dar inveja, prêmios, arrancando elogios por onde passa e vendendo discos e mais discos, obrigada.

Cornerstone” é o seu primeiro grande sucesso, aquele que apresentou a força da voz de Benjamin Clementine para o mundo, a música que “eu nunca mais vou parar de cantar”, diz ele brincando depois de enésima apresentação em publico. Agora, a nova “música de trabalho” é Nemesis, segundo single do disco At Least for Now. Deixo vocês com a música porque me faltam palavras…

“You get your punishment? Nemesis is as a matter of karma…Remember karma”

Zein Al Jundi e a música que vem da Síria

Zein Al JundiAssistir ao telejornal pode ser a coisa mais deprimente do dia… Quando as noticias tocam os mundo árabe então, é praticamente impossível ficar indiferente à tanta coisa ruim, dramática, cheia de maldade e mal entendimento.

Fui buscar a beleza na Síria, pais árabe no sudoeste asiático e desde 2011, em guerra civil. Nao quero pensar, me entristece. Peço ajuda para a cantora Zein Al Jundi  que começou muito cedo a sua carreira e que já aos cinco anos de idade se apresentava nos canais de tevê e rádios de Damasco. Foi para os Estados Unidos para estudar e por lá ficou. Hoje vive em Austin, no Texas, onde ensina dança do ventre, trabalha com importação de produtos árabes e se dedica às causas humanitárias ligadas ao seu povo sofrido.

“Wijjak Maíi” faz parte do seu segundo disco, Sharrafouni e foi escolhido pela casa discográfica Putumayo para fazer parte do disco Acoustic Arabia, de 2008. Em algum momento, diz mais ou menos assim: “No meu mundo, a alegria é bem vinda e a minha alma chama você de volta,  não me deixe e juntos vamos escrever uma estoria”

The Swingles: Quando a voz é o único instrumento

The Swingles

Existe um estilo musical que usa apenas a voz como instrumento. Provavelmente uma técnica que todo mundo já experimentou, com mais ou menos capacidade. The Swingles é um grupo de musica à capela com origem na França nos anos 60 e hoje com sede na Inglaterra. Que este estilo musical teve origem nos tradicionais cantos gregorianos, ninguém discute mas a verdade é que foi com a cultura pop que ele ganhou folego para chegar até os dias de hoje (quem nunca brincou de Glee?!?). Os longos desse meio século de existência, The Swingles colecionou Grammys, gravou mais de 50 discos e ajudou a popularizar a musica clássica, com “covers” digamos assim, de arias de Bach, Mozart misturadas ao swing do jazz.

No começo dos anos 70 o grupo decide encerrar as atividades mas um dos tenores,  Ward Swingle insiste, recriando o grupo, praticamente com o mesmo nome, em Londres. Hoje, o The Swingles é um septeto com as vozes de Joanna Goldsmith-Eteson,  Sara Brimer, Clare Wheeler, Oliver Griffiths, Christopher Jay, Kevin Fox e Edward Randell além da moral de participar de projetos musicais com importantes nomes da musica pop, como o Modern Jazz Quartet, Jamie Cullum e Labrinth além da participação na trilha de séries bacanas, como a já citada Glee e Sex and the City.

Confesso que foi duro escolher uma musica para apresentar o grupo. A tentação de ficar com uma das interpretações dos classicos  de Bach ou Mozart era grande. O tango de Piazzola  é muito potente, as covers dos Beatles magnificas… Tudo lindo. Mas foi a cover de “Couldn’t Love You More”, de John Martyn, cantor e compositor escocês que me emocionou mais. Espero que você também se emocione…  Mostre para os amigos, ajude a espalhar a musica do Mundo Sonoro também pelo Facebook, bem aqui.

A festa cigana de Gipsy.cz

Gipsy Cz.

Morar na Europa também significa entrar em contato com etnias que no Brasil, só tinha ouvido falar ou visto de longe, muito de longe.  Uma delas são os “rom“, nome usado, pela mídia principalmente, para definir o que a gente costuma chamar de ciganos. Infelizmente, o preconceito que circunda esses povos é enorme.  Vitimas de perseguições ao longo dos séculos,  esse povo nômade é famoso por preservar os seus costumes, defender as tradições e, ao mesmo tempo, conseguir se adaptar às comunidades que os acolhem.

Gipsy.cz vem da República Tcheca, mais precisamente da capital, Praga. Como se já não bastasse a força da musica gipsy, o grupo – guiado por Radoslav Banga, o Gipsy que da nome ao grupo, bebe direto da fonte do hip hop. Em 2009, foi escolhido pelo seu país para representar os tchecos no Eurovision, famoso festival de arte europeu cantando em rom e em inglês: A música era  Aven Romale.

Eu gosto muito de Jednou, musica do disco Romano Hip Hop de 2006. Gosto da força , da batida, do rap. Jednou, em rom, quer dizer “Uma Vez”. Os primeiros versos da letra: “Eu ouço  a sua linda voz, eu não consigo dormir; eu vejo os teu olhos azuis nos meus pensamentos. Você é a minha dama branca, mas eu não quero mentir porque eu não posso amar você…” Música para dançar, numa roda grande, pulando!

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O carnaval cubano de Raúl Paz

IMG_2680 Concertos sold out por onde passa. Milhares e milhares de cópias dos seus discos vendidos em todo o mundo e definir a música do cubano Raúl Paz não é fácil. Salsa pop? Jazz electro? Elétrico latino? Hum…

Especialista em recriar-se a cada disco (já são oito, último é Ven Ven de 2014), Raúl Paz gosta de fazer uma música capaz de divertir e emocionar qualquer pessoa que entre em contato com o se sound cheio de alegria. A sua evolução musical começou com as jam sessions de guajira em Pinar del Rio, onde Raúl nasceu. Mas não é que a música tradicional o inspirasse muito… O jovem Raúl gostava da música feita além das fronteiras de Cuba, tipo Deep Purple, Led Zeppelin, Bob Marley.

Nos anos 90, Raúl muda para Paris onde vira uma febre, tocando nos clubes mais hypados da Ville Lumière. Em 2003, conhece a fama mundial com “Mulata“. É ele o nosso abre alas com a música “Carnaval” do disco Havanization de 2010. Com esse delicioso mix feito de batidas de hip hop, dub, riffs de rock e groove, convido vocês a brincarem o carnaval com Raúl Paz. Divirtam-se! e não esqueçam curtir a nossa página no Facebook, bem aqui.

Do Cambodja, com amor: Dengue Fever

Dengue Fever

às vezes me perguntam como é que eu faço para “achar” tanta música diferente. Não sei. Acho que é essa musica que fica ali, esperando que alguém de algum lugar a descubra. Quando comecei com o programa na Radio Universidade de Londrina, a internet ainda era discada. E juro que a informação sobre musica do mundo começava a circular com a mesma velocidade da conexão daqueles tempos. Geralmente, eu pegava um CD na mão e a partir dele, ia garimpando outros grupos, outros sons. Agora é tudo muito mais rápido porque uma coisa linka a outra e desconfio que não exista um limite:  cada clique um som novo, artistas incríveis, historias de lugares , de pessoas, que a gente nem poderia imaginar.

E hoje fui parar no Cambodja, atraída pela vocalista da “Dengue Fever“, uma banda de pop rock que cheira naftalina. A front woman é Chhom Nimol e foi justamente ela que me chamou a atenção. Impossível, para mim,  não lembrar da nossa Gaby Amarantos, impossível para mim não pensar no tecno brega… Deve ser a umidade da floresta, comum aos dois países. Queridinha de festivais indie nos Estados Unidos e Europa, a banda também tem no currículo a participação em trilhas sonoras de filmes e séries cult. The Deepest Lake é o último disco da banda que hoje se divide entre o Cambodja e Los Angeles. Além de Chhom Nimol, a Degue Fever é formada  por Zac Holtzman – o cara com a barba enorme –  e o seu irmão, Ethan; Senon Williams, David Ralicke e Paul Smith. Deixe-se levar por essa festa…

Jazz + Rap; Líbano + Mali

Na França, o rap encontra o jazz, o Líbano encontra Mali… O resultado do encontro entre o rapper Oxmo Puccino e o trompetista libanês Ibrahim Maalouf rendeu um disco, “Au Pays d’Alice” que, mais que um disco, é um projeto musical inspirado na obra de Lewis Carroll onde as aventuras de Alice no País das Maravilhas são contadas pelas letras do rapper malinês e pelas melodias jazz-rock com coros e orquestra criadas por Ibrahim. O primeiro video dedicado ao album, “La Porte Bonheur” é uma obra prima! Uma viagem alucinógena com trilha da melhor qualidade. C’est la classe!!